União da Ilha do Governador
“BA-DER-NA! Maria do Povo”
Carnaval 2025

LIBRETO/SINOPSE

Segundo populares das ruas do Rio:
Ba.der.na.
Substantivo feminino.
1. Situação em que reina uma alegria ordeira.
2. Coloquial: alvoroço, anarquia, auê, bafafá, bambochata, bando, banzé, baralhada, berzabum, beberrona, caterva, divertimento, ejó, farra, furdúncio, folia, forrobodó, fubá, fuzarca, gandaia, gritaria, malta, manada, miscelânia, pândega, patuscada, pepineira, trança, rebuliço, rega-bofe, reinação, salseiro, sororó, súcia, turundumdum.
3. Transcrevo: “Franca Anna Maria Mattea Baderna ou popularmente, Marietta Baderna. Desembarcou no Rio de Janeiro com 55 artistas da Orquestra Lyrica Italiana, sob a regência de um amor que conhecera a bordo: o maestro Gioachino Giannini. Primeira bailarina do Teatro Scala de Milão, aluna do Maestro Carlo Blasis. Sua presença no Rio de Janeiro, em 1849, desencadeou tamanhas demonstrações de entusiasmo que deu origem à palavra como sinônimo de súcia de rapazes e moças.” Pelo jornalista Moacir Werneck de Castro. (Jornal do Brasil, sábado, 11/07/87)
4. Sinônimo injusto de confusão, quebra-pau, pouca-vergonha, depravação.

[Ilha Encantada]
Um estandarte, escrito BADERNA, prenuncia um sonho de carnaval:
Pena delirante ao descrever um Cenário Tropical. Aporta no coração da Ilha Encantada, o Bergantim Andrea Dorea. Levita com suas asas libertárias, sobre a bruma das Águas da Guanabara. Menina das sapatilhas de ponta, transforme a Avenida em seu eterno palco. Continue a plainar no céu da Cidade Maravilhosa. Se quiser ver o seu nome na minha eterna Ópera/Samba-Enredo. Visão que desperta o aplauso nativista de José de Alencar para o Lago das Fadas, a se apresentar no Teatro São Pedro de Alcântara, a sílfide é recebida com uma chuva de flores tropicais.

ATENÇÃO, abolicionistas!

Pretos, indígenas. Mestiços – caboclos, cafuzos, mamelucos.
Sobreviventes nativos de Pindorama; Cativos de Passeio; Quituteiras da Praça do Cais; Quitandeiras da Rua do Mercado; Lavadeiras do Carioca; Amas de Leite; Escravizados Fugitivos – Verdadeiros Reis da Orquestra Popular e Rainhas do Corpo de Baile de Maxixes e Lundus. Mãos calejadas que ditam uma Congada de Timboris, Marimbas e Guzungas. Passos que embalam requebrados, meneios, mesuras saltitantes de canto viril. Tablado da liberdade das ruas cariocas calçadas em pedra-sabão.

[Febre Dançante]
O Rio de Janeiro, até então Capital do Império, vive uma Febre Dançante. Baila orquestrado pelo cotidiano de ladainhas e picuinhas daqueles que dizem prezar os “bons costumes”. Mero engano, Cortês! Os folhetinistas dos jornais revelam o cotidiano urbano através de crônicas, notas e charadas infâmias. Os olhares culposos denunciam a fofoca e a maledicência nas coxias dos palacetes – é a fétida elite, os maltrapilhos sociais.

Caixeiros ambulantes liquidam partituras da Biblioteca Musical na Rua dos Ourives. Elite que encalhou a popularidade de pianos na quebrada Alfândega. Vestes que amarguram a realidade no comércio da Ouvidor. Até o palhaço do Circo Equestre, vejam só, não armou sua lona! Em meio ao surto da febre mmarela: Pasmem! O Rio se agita com o Grande Bailado de Dom Pedro II no Teatro Imperial. O Imperador atravessa o passo e a memória dos artistas da Companhia Lírica, dizimados pela epidemia da Febre Amarela. Se vão italianos, franceses, polacas e quase todos os brasileiros. Sai, da cena da vida, um ilustre sonhador: Antônio Giannini, seu Pai – Principal entusiasta artístico dessa viagem Atlântica.

[Pateada Baderneira]
Maria foi protagonista da greve salarial que agravou a relação dos artistas italianos com o Teatro Imperial. O destino os levaria a um novo palco: o recém-inaugurado Teatro Santa Isabel. Recife respirava os ares da resistência abolicionista. O baile da vida seguiu no ritmar das violas à beira do Rio Capibaribe. Mascarados se misturavam a Odaliscas, espanholas bailavam a cachucha. O palco iluminava a roda aberta, evocava os terreiros. Convite feito em requebrares e dançados com as mãos nas cadeiras. Bastava somente uma perna para que o Lundu d`Amarrua dominasse a cena. A Umbigada provocava a plateia, que em delírio, cobriu o palco com uma enxurrada de aplausos e camélias.

A volta triunfante ao Rio de Janeiro foi coroada por um passeio ao Morro do Corcovado, todos embriagados pelo silêncio da noite. Cerimoniada pela saudade da gente carioca, a batucada embalou as trilhas da Floresta da Tijuca. A visão do alto era a de um Pão de Açúcar dançante (como descrito por Gonçalves Dias) e não revelaria, tão logo, a tragédia que abalaria os sinos de Nossa Senhora do Lampadário. As almas purgantes incendiavam-se junto ao Teatro São Pedro de Alcântara. A Companhia transferiu seus espetáculos para o incipiente Teatro Provisório. Rosina Stoltz – a nova prima-dona da Orquestra – traria, com a sua fama babilônica, ares quentes e libidinosos. Sucesso dantesco, como as chamas que consumiram em poucas horas o maior palco lírico da cidade.

Conduzidos pela batuta do Maestro Gioacchino Giannini nascem a Orquestra e o Teatro Nacional, sob olhar atento do escritor Machado de Assis. Na ópera O Brasil e o Paraguay, Maria encena a vitória dos Zuavos brasileiros e o amor por nossa pátria, ao selar um beijo na bandeira brasileira. Dando lugar ao antigo incendiário São Pedro, o Teatro Lyrico é invadido, em apoteose, por uma juventude romântica e cheia de ideais. Levam às ruas carruagens testemunhas da Marcha das Pateadas. No mesmo palco, dias após, acompanham a assinatura da Lei do Ventre Livre. Uma bilheteria estrondosa alforriou um cativo de dois anos. Caminhos iluminados por lampiões e louros conquistados com a vitória.
E, que viveu para ver a Lei Áurea ser decretada.

[República dos Badernistas]
ATENÇÃO! Republicanos, Liberalistas e Feministas!
A República Badernista será formada! Conclamo à serenata: Poetas ébrios; Viventes de cafés; Mariposas dos logradouros; Cocotas em uma nova moda – o Can-Can parisiense. Quem sabe, uma volta à Loja do Chá? Ou, que tal um banho de mar à fantasia? De repente, nos porões dos Salões de Baile, perambula a alma fúnebre desses amores platônicos. Faço das “Folias” uma Sociedade Recreativa para uma Baderna Infernal. Guerreiros que defendem os ideais da liberdade em seu nome, na Ala Quilombo das Camélias. Rastro de flores, pétalas de rosas e limões de cheiro. Venham participar desse grande encontro entrudesco! BADERNA – Protagonismo de Rainha desse estandarte. Nome de rua. Quis o destino findar sua ribalta, nos “Enganos de um arlequim”.

Querida e eterna Maria,
Quimera imortal.
Continue a pairar, sobre nós.
A sua alteza: o povo!

Que agora vibra com os Baderneiros Insulanos de uma outra Ilha Encantada.
A Ilha do Governador.

BA-DER-NA! BA-DER-NA! BA-DER-NA!

[Carnavalesco] Marcus Ferreira
Dedico esse enredo às pesquisas de Marília Giannini e ao livro BADERNA – O memoricidio no dicionário, escrito por Paula Giannini e às suas memórias matriarcais emocionantes.
[Texto e Desenvolvimento] Marcus Ferreira e Paula Giannini (tetraneta de Marietta Baderna).
[Pesquisa] Marília Giannini (trineta de Marietta Baderna).
[Revisão Textual] Prof. Henrique Pessoa.

Óperas Líricas citadas:
As Folias (1864); As Odaliscas (1851); Enganos de um Arlequim (18xx); Ilha Encantada (1880); O Lago das Fadas (1849);

[Glossário Badernista]
Andrea Doria – Veleiro armado tipo Galé, que trouxe a Companhia Lírica Italiana ao Rio de Janeiro;
Biblioteca Musical – Grande depósito de música e instrumentos musicais da Rua da Alfândega;
Cachucha – Dança sapateada de origem espanhola;
Caixeiros – Pretos e mestiços – Vendedores ambulantes para comerciantes;
Circo Equestre – Circo itinerante de Bartholomeu Corrêa, dos tempos do Segundo Império;
Corbélias – Cestos ou ramo de flores tropicais de tipos variados;
Crônicas, Notas e Charadas – O furo dos caguetes do cotidiano das ruas aos Cronistas dos Matinais;
Febre Dançante – Movimento de dança carioca que se associou à epidemia da Febre Amarela;
Lundu d´Amarruá – Dança de pretos e mestiços evocada nas ruas brasileiras – Amarruá, sinônimo da expressão “por baixo dos panos”;
Pateada – Bravo dos pés, aclamação do público;
Prima-dona – Primeira cantora lírica de uma Ópera;
Quilombo das Camélias – Quilombo do bairro do Leblon, Zona Sul carioca;
Rua dos Ourives – Rua de comércio musical na Região Central;
Sílfide – Ser feminino adorado;
Sociedade Recreativa Baderna Infernal – Bloco Recreativo do Recife-Pernambuco;
Timboris, Marimbas, Gazungas – Instrumentos primitivos de percussão;
Zuavos – Soldados pretos brasileiros da Guerra do Paraguai.

 

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Alvaro Camaras

Mais um grande equívoco do carnavalesco Marcos Ferreira. Vai dar um nó na cabeça da comunidade e dos compositores. É sobre isso e ponto final.

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