São Clemente
“Que grande destino reservaram pra você!”
Carnaval 2024

Apresentação

Vem aqui do Nordeste, mais precisamente da cidade de Guarabira, o nome que dá o tom do enredo para o próximo carnaval. Que Deus abençoe os poetas, escritores e compositores, pessoal indecifrável. Essa gente que vive feito bom pai. Sim, pai! Porque bom pai é aquele que prefere o brilho dos crias do que dele próprio.

Ao procurar no dicionário a definição da palavra Catimba vai encontrar manha, astúcia ou, na peleja esportiva, consiste no uso de manobras astuciosas para prejudlcar o adversário e ganhar tempo, em especial quando o time esta ganhando.

No universo da música popular brasileira e, em especial, no vocabulário sambistico, Catimba é sinônimo de boo música! É a perfeita combinação entre a letra e a melodia, é a cadência envolvente dos acordes vibrantes com a poesia que toca a nossa alma. É a partitura de um Brasil no gingado e no batuque que mistura as raças, as cores, os ritmos, os credos e nos enche de orgulho, o Brasil que deu certo!

Nós, escritores do Cordel, somos encantados por heróis que inspiram bons causos.

Delírio e realidade se encontram em cenários inventados, escritos com o sotaque típico do povo do Norte, que tinge o Brasil em madeiro prensada no papel.

Mais um cordel? Nordeste novamente? Tudo de novo? Minha resposta será: Sim, tudo outra vez! Só que mais sorridente, pois vem São Clemente! E igual, só que também é diferente, afinal é carnaval! Tudo se repete, mas tudo se transforma, é moderno e é muderno!

Meu nome é José Camelo e também venho da Paraíba. Aí pelo Sul pouca gente ouviu falar de mim. Dediquei minha vida à literatura de cordel. Para falar a verdade, alguns clássicos desse repente são, modéstia à parte, de minha autoria. No ano do meu centenário minhas rimas ganham vida e saltam do papel pendurado na corda para renascer nos versos que embalarão milhares de foliões sambando ao ritmo da Fiel Bateria e cantando a glória de outro paraibano, conterrâneo de Guarabira: José lnácio dos Santos. O compositor que vocês, do Rio de Janeiro, conhecem muito bem. Sabem quem? Zê Katimba.

Zé é um dos nossos, não ha motivos para ciúmes, me envaideço e agradeço o reconhecimento para os que, feito e vivem da poesia.

Para começar, já vamos ser diferentes, contando a história do Zé, de trás para frente!

Mais que feliz!

Guarabira está em festa para saudar seu ilustre compositor. O busto dourado já está prontinho para ser inaugurado. Os sinos da igreja dobram em homenagem ao filho pródigo, os fogos explodem e o festejo não tem hora para terminar. Seus sambas tocam em cada cantinho da cidade, junto aos violeiros, sanfoneiros, seresteiros e todo tipo de cantadores. O catimbeiro nordestino que sem mala nem cuia foi parar no Rio de Janeiro, hoje é patrimônio da cidade. O colorido das fitas da Rainha do Brejo mistura o “verde, branco e dourado” da Rainha de Ramos ao “preto e amarelo” clementiano consagrando nosso poeta e marejando o meu olhar.

O Katimba, o Zé e a música
Senão um dia
Por qualquer pretexto
Nos botam cabresto e nos dão ração

Sangue paraibano, ele não é de não brigar pelo que lhe pertence. Quando suas obras ganharam o mundo e Zé não recebeu o que lhe cabia, ele peitou o sistema. Se alguém gritava: “Assim você vai se queimar, vão te colocar na geladeira”, Zé respondia – “Me queime e me congelem, mas estou brigando pelo certo, por mim e pelos compositores.

Foram muitas brigas ao longo da sua vida, porém sempre teve como arma sua música e poesia. Nesse mundo que mói gente feito engrenagem, deu voz às mulheres, aos pretos, aos nordestinos e aos sertanejos, sempre gritando contra a exclusão social, fez nascer de cada luta uma nova canção.

Vem me salvar boca a boca
Tô morrendo de amar
Vem fazer amor bonito
Vem para se deliciar
Você é fêmea no cio
Deixa seu macho dengoso
Quando diz no meu ouvido…
Tá delícia, tá gostoso

Os amores, as paixões e a sensualidade que me permeiam o universo feminino são linhas constantes na obra do nosso compositor. “Recriando a criação”, “Gata selvagem”, “Jaguatirica”, “É preciso amar”, “Me ama amor”, “Na minha veia”, “Tá delícia, tá gostoso”, “Minha e tua”, “Cuidado com a inveja”, “Viola de fita”, “Lindo é você ser a minha mulher…”, são algumas das mais das setecentas obras de Katimba que se espalharam por aí, explicitando muitas das suas aventuras e desventuras amorosas.

É o amor
Minha escola na avenida
A paixão da minha vida…
Verde é minha raiz, Imperatriz!

Como estamos falando de amor, palavra e sentimento constante nas obras do nosso poeta, chegou a hora de contarmos o maior de todos: A Imperatriz Leopoldinense, agremiação na qual Zé Katimba deixou gravado seu nome e é um de seus baluartes. Riscou o chão como passista, foi ritmista, mestre-sala e até mesmo presidente interino ao lado do amigo Luiz Pacheco Drumond. Entretanto foi como compositor que Zé fez nome e ganhou projeção no mundo do Samba.

Muitas vitórias vieram ao longo desses mais de sessenta anos de dedicação à Rainha de Ramos. Os versos de “Só dá Lalá” embalaram a escola na conquista do bicampeonato no carnaval de 1981 e, como reedição, trouxe a escola à elite do carnaval no desfile do ano de 2020.

O carnaval de 1972 mudou completamente a história da Rainha de Ramos. Com o enredo “À maneira do Martim Cererê”, a Imperatriz furou o inabalável bloqueio das consideradas Grandes Escolas e conquistou um inédito quarto lugar. O samba composto por Zé Katimba para o desfile ficou conhecido nos quatro cantos do Brasil através da novela “Bandeira 2”, exibida em horário nobre pela Rede Globo de Televisão.

Nosso poeta ganhou fama e virou, inclusive, um dos personagens da trama, interpretado pelo consagrado Grande Otelo.

Com o tema “Barro de ouro, barro de rio, barro de saia”, para o carnaval de 1971, Zé venceu a primeira disputa de samba na sua escola do coraçõo e, mais uma vez, a visão romântica da criação de um Brasíl forjado na mistura das três raças deram o tom, a letra e a melodia para a vitória.

Se toda história
Tem início, meio e fim
A dele começou assim…

Foi junto a rapaziada do Recreio de Ramos que Zé se envolveu no universo das escolas de samba e, anos mais tarde, à nata dos sambistas que integravam a pioneira agremiação da Zona da Leopoldina, fundariam o Imperatriz. Morando no barraco mais alto do morro do Adeus, bem pertinho do céu, nosso poeta criou letras e melodias que embalavam as rodas de batucada da boemia suburbana. Nosso bravo Zé Inácio chegou ao Rio de Janeiro, na cidade de Niterói, viajando clandestinamente em um navio de cargas. Sua primeira visão em terras fluminenses ainda resiste inabalável na memória: O busto de um cacique indígena, fundido em bronze, que despontava imponente no horizonte deixando evidente sua magnitude.

As ondas cortadas pelo casco da embarcação pareciam acordes dissonantes na melodia da vida do nosso menino que, naturalmente, carregava a incerteza dos novos tempos que estavam à sua frente. Na imaginação do jovem Zê, que ainda não era Katimba, um canto doce em voz feminina se fez presente e, na imensidão do mar repleto de mistérios e encantos, uma cigana travestida de sereia prenunciou a boa sorte na sua vida com uma frase que serviria como mantra para eternidade: “Que grande destino reservaram pra você!” Presságio tão marcante quanto as bênçãos de Frei Damião à aventura da família de vir ao Rio, última imagem ao deixar o terra natal.

Estamos chegando ao fim, ou se você preferir, ao início de tudo. Guarabira começou e vai terminar a nossa história.

O cheiro de abacaxi no ar adoça seus noventa e um anos de vida e traz de volta a criança que nunca partiu. Impressionante como toda aquela dureza era doce, perfumada, inocente, colorida e feliz aos olhos do pequenino. No passado a imagem que fico embaçada relembra os pés descalços, a roça,a poeira, os carros de boi passando em uma cidade ingênua que reina para sempre em suas memórias. O destino era ser o peão que cuidaria do roçado, entretanto a música, herdada do velho João Inácio que era violeiro respeitado, tocou mais forte.

É o velho João Inácio que dá os acordes fínais do nosso desfile, embalando nos braços sua viola de fitas coloridas, troféu das muitas disputas vencidas no sertão,vendo a São Clemente recriar a criação e cantar para o mundo um samba para Zé Katimba!

Carnavalesco
Bruno de Oliveira

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